Informe sobre o cámbio do nome do concelho do Campo Lameiro

O Seminario de Onomástica da Real Academia Galega decidiu alterar o nome oficial do concelho de Campo Lameiro, até agora vigente, que passará a denominar-se O Campo Lameiro na próxima versão do Nomenclátor de Galicia. Fê-lo oficiosamente após alguns membros do Seminário manifestarem que a forma oral usada pelos habitantes da zona incluía o artigo. 

Na investigação ficou claro que o nome do concelho pontevedrês de O Campo Lameiro é um exemplo de topónimo de gabinete, isto é, uma denominação artificial promovida pela administração e que não tinha uso real no momento em que foi criada. A denominação vigente até à última versão do Nomenclátor, Campo Lameiro sem artigo, foi-lhe imposta há mais de um século através do Real decreto de 27 de junho de 1916, publicado na Gaceta de Madrid de 2 de julho do mesmo ano. Este texto legislativo tinha como objetivo evitar homonímias nas denominações oficiais dos concelhos do Estado e constitui uma ampla reforma do Nomenclátor municipal espanhol, pois afetaria 573 concelhos.

Gaceta de Madrid

Gaceta de Madrid de 2 de julho de 1916

A proposta desta renovação nominativa partiu da Real Sociedade Geográfica de Madrid e tem antecedentes alguns anos antes, em 1907. Num relatório que esta instituição enviou à Deputação de Pontevedra, indicou-se a conveniência de que vários municípios da província alterassem a sua denominação oficial. Para o caso que estamos a analisar, propunha-se a denominação oficial de Campo Lameiro, pois a denominação vigente na época, Campo, coincidia com a de outros dois municípios espanhóis, El Campo em Cáceres (hoje Campo Lugar e Campo de Alcántara na proposta de 1916) e Campo em Huesca. Segundo a académica correspondente e membro do Seminário de Onomástica da RAG Luz Méndez, este nome artificial nasceu de somar ao nome tradicional de Campo o topónimo de um lugar adjacente, O Lameiro.

Do relatório da Real Sociedade Geográfica deu-se conta na Comissão Permanente da Deputação de Pontevedra de 6 de julho desse ano, que aceitou a proposta e passou a denominar este concelho como Campo Lameiro na sua documentação oficial, antes mesmo da publicação do decreto de 1916. O próprio concelho também efetivou a mudança, como demonstram diferentes testemunhos documentais emitidos pela administração local.

Como vemos, O Campo Lameiro nasceu simplesmente como Campo, sem artigo, em 3 de dezembro de 1836 após a fusão de três concelhos constitucionais existentes na época: Moimenta, Fragas e Campo (sic). Neste decreto de 1836 estabelece-se como capital municipal a localidade da Feira do Campo, Feira del Campo no texto legislativo, hoje desaparecida. Como vemos, havia então uma contradição entre o nome do concelho, sem artigo, e o lugar e a paróquia em que se fixava a capital municipal, com artigo.

No entanto, apesar de o nome fixado para o município carecer de artigo, Campo, existem numerosos exemplos do seu uso com artigo inclusivamente na documentação administrativa: vejamos, por exemplo, as contas municipais do ano de 1851 ou as listas enviadas pelos concelhos para a formação da lista eleitoral de deputados às Cortes contribuintes do ano de 1854. Nestes dois testemunhos, a única forma empregada é Ayuntamiento del Campo, com o artigo castelhanizado. 

Contas municipais de 1851

Contas municipais do “Ayuntam.to Const.l del Campo”. Fonte: ATOPO

Listas 1854

Listas eleitorais de 1854. Fonte: ATOPO

Fica claro que o nome do lugar e da paróquia onde se situa a capital municipal é O Campo, forma histórica e também própria da oralidade da população deste concelho. No entanto, a fixação do nome oficial em 1916 atuou como referência para que o artigo fosse desaparecendo na oralidade na denominação de um concelho que até então também era conhecido como O Campo, como demonstram os testemunhos escritos pelo próprio concelho ao longo do século XIX.

À vista desta documentação, o Seminário de Onomástica da Real Academia Galega ditaminou restaurar o artigo usado pela população de O Campo Lameiro e também por coerência com o nome oficial da paróquia, O Campo

FONTES E BIBLIOGRAFIA

ATOPO, Catálogo documental e bibliográfico da Deputación de Pontevedra <https://atopo.depo.gal/> 

Resolución de los 578 ayuntamientos de España comprendidos en la propuesta de la Real Sociedad Geográfica, cuyos nombres se modifican con sujeción a lo prevenido en el Real Decreto de esta fecha. Gaceta de Madrid núm. 184 do 2 de xullo de 1916.

Méndez Fernández, L. (2016). Galicia no decreto de 1916. Boletín da Real Academia Galega 377, pp. 365–386. 

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