Há etimologias populares que se transmitem de pessoa para pessoa, de século para século, e acabam por se tornar verdades quase incontestáveis para as populações locais. A que hoje nos ocupa é a que explica o nome do concelho corunhês de Valdoviño. Qualquer pessoa a quem se pergunte neste concelho da Terra de Trasancos não hesita em responder: trata-se de um Val do Viño 'vale do vinho'. Esta explicação popular, que já circulava no século XVII, foi difundida por muitos escritores, o que contribuiu para a sua propagação. Alguns tentaram mesmo conferir-lhe um caráter científico: Carré Aldao, na Geografía general del Reino de Galicia, argumentou que outrora abundavam nesta terra as vinhas e os seus vinhos, até que “a propagação da filoxera acabou praticamente com o seu cultivo”. Se non è vero, è ben trovato.
No entanto, esta etimologia apresenta duas importantes fragilidades que comprometem a sua credibilidade: a primeira é que não encontramos qualquer testemunho antigo em documentos escritos onde se possa observar o sintagma separado; a segunda é que a produção de vinho neste concelho sempre teve pouca relevância, segundo os historiadores locais.
À luz destes factos, alguns autores apresentaram mais recentemente hipóteses alternativas para explicar o topónimo Valdoviño. O memorável Cabeza Quiles sugeriu a sua origem num antropónimo latinizado, BALDOVINUS, tese que foi firmemente apoiada por Álvaro Porto da Pena. Segundo estes autores, o antropónimo encontra-se amplamente documentado na prosa notarial medieval, mas deixou escassos testemunhos toponímicos.
Esta tese apresenta, contudo, um obstáculo à sua aceitação: o topónimo Valdoviño é uma criação relativamente recente, talvez do século XVII, pois anteriormente o nome da freguesia de Valdoviño era Santalla de Aviño ou Avinio; assim aparece registado desde o século XII até ao século XVII. Partindo destes testemunhos antigos, Edelmiro Bascuas supôs a existência de um curso de água denominado Aviño, relacionado com a raiz pré-romana *Ab- ‘rio’, a mesma que encontramos em topónimos como Avia ou Aveiro. Bascuas argumentou que Valdoviño é paralelo a outros“tantos casos de ríos que terminan dando nombre al valle que riegan, como Valedouro (...), Val do Dubra, Val Miñor, Valderas, Valduerna”.
Vários autores objetaram a esta tese que a orografia do lugar não permite falar propriamente de um vale. No entanto, Gonzalo Navaza sustenta na sua obra Os nomes dos concellos da provincia da Coruña que existem paralelos do uso de Val na região “para se referir a freguesias contíguas conhecidas por nomes que apenas se diferenciam pela invocação religiosa”, citando como exemplo Val de Sillobre para as antigas freguesias de Santa Mariña, San Xiao e San Salvador de Sillobre.
Assim, Valdoviño seria um sintagma toponímico aglutinado — originalmente formado por três elementos, Val + de + Aviño —, cujo último elemento não seria o substantivo comum galego viño (‘vinho’), mas sim um hidrónimo de origem pré-romana, Aviño.
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