O Seminário de Onomástica da Real Academia determinou mudar a denominação do concelho da Cañiza, vigente até agora, que passará a denominar-se A Caniza na nova versão do Nomenclátor da Galiza. Fê-lo após iniciar oficiosamente um processo de revisão do topónimo para restaurar a forma genuinamente galega, A Caniza, que coincide com a palavra do léxico comum recolhida no Dicionário da Real Academia Galega com diferentes acepções, todas elas fazendo referência a estruturas ou objetos realizados com varas ou canas entrelaçadas.
Trata-se, portanto, de um derivado de cana (< latim CANNA) a partir do étimo CANNICEA. Segundo indica o académico e investigador Gonzalo Navaza na obra Fitotoponimia galega, canizo e caniza aludem na toponímia ao uso de canas ou varas “para pechar leiras ou defender do vento as hortas ou plantacións, aínda que non podemos descartar a posibilidade dun uso como sinónimo de cabaceiro ou hórreo”.
As formas canizo e caniza estão plenamente vivas na microtoponímia galega: segundo dados do portal Galicia Nomeada, existem 501 lugares no território galego cuja denominação inclui o topónimo canizo e 144 caniza.

1 Distribuição dos topónimos Canizo e Caniza na microtoponímia galega, segundo dados do portal Galicia Nomeada
O topónimo está documentado desde há muito: na Idade Média, a localidade de A Caniza integrava o couto das Achas, pertencente ao mosteiro da Franqueira. Na documentação deste mosteiro existem registos do topónimo A Caniza (“outra nosa leyra e seve da Caniza”, ano 1297), que talvez não se refiram a esta localidade, mas que, em qualquer caso, testemunham a existência do nome na toponímia da zona.
Não deixam margem para dúvidas diversos testemunhos do século XVI: nos apeamentos de bens das paróquias de Casteláns (Covelo) e As Achas (A Caniza), pertencentes ao mosteiro da Franqueira, regista-se um “En el lugar de la Caniça” (1583):

2 “En el lugar de la Caniça”. ES.28079.AHN/10//CLERO-SECULAR_REGULAR,L.10042, PARES
Noutro documento de 1589 cita-se “villa de la Caniça, que es en el valle de las Achas & rreyno de Galicia”:

3 “En la villa de la Caniça”. ES.41091.AGI//CONTRATACION,234,N.2,R.8, PARES
Numa relação de bens de Álvaro de Buiza do ano 1595 lê-se “villa de la Caniça que es en el Valle de las Hachas del rreyno de Galicia”:

4 PARES: ES.41091.AGI//CONTRATACION,234,N.2,R.8
Nas referências em textos escritos em castelhano, o topónimo aparece frequentemente castelhanizado como La Cañiza, e com esta forma costuma ser registado na documentação posterior à criação da paróquia. Contudo, em fontes como o Cadastro de Ensenada (1753) e no seu processo de comprovações (1764), ao lado da forma deturpada surge por vezes a forma legítima.

5 “Lugar de la caniza” no Cadastro de Ensenada

6 “al sitio do rregueiro da Caniza” nas Comprovações do Cadastro de Ensenada (pág. 216)
A forma própria não castelhanizada também foi registada pelo padre Martín Sarmiento na sua viagem à Galiza no ano de 1755: “E a altíisima cordillera da Franqueira, Caniza, y Paradante o Pedra de Anta, que es el remate azia Mourentán”:

7 Viage a Galicia de Frey Martín Sarmiento (1754-1755), pág. 101
Desde o nascimento do concelho, nas primeiras décadas do século XIX, empregou-se na sua denominação oficial a forma deturpada, La Cañiza ou simplesmente Cañiza. Esta forma figura, por exemplo, no repartimento geral publicado em 1821, onde aparecem relacionados os concelhos e partidos judiciais que faziam parte da Galiza:

8 Partido de Cañiza no repartimento geral de 1821 onde estão incluídos os diferentes concelhos que então formavam a Galiza. Retirado de Fariña Jamardo (1990)
O nome oficializado já no século XIX contribuiu para fixar o topónimo castelhanizado entre a população. Todavia, o Seminário de Onomástica da Real Academia Galega pôde comprovar que a memória do originário A Caniza sobreviveu até à atualidade entre os falantes da zona, sobretudo os de maior idade, embora cada vez com uso mais minoritário.
Tendo em conta que a lei estabelece que a forma oficial dos topónimos da Galiza é unicamente a galega e que a forma Cañiza é alheia à língua galega, o Seminário de Onomástica da Real Academia Galega propôs oficializar o topónimo A Caniza para o nome da vila, da paróquia e do concelho.
FONTES E BIBLIOGRAFIA
Expediente de comprobación de bienes, rentas y cargas de la feligresía de Santa Cristina de Valeije (Albeos, Tuy), efectuado por decreto de diciembre de 1760 para el establecimiento de la Única Contribución. <https://pares.mcu.es/ParesBusquedas20/catalogo/show/6088787?nm> [Consultado 19/09/2025]
Fariña Jamardo, Xosé (1990). Os concellos galegos. Parte xeral. A Coruña: Fundación Barrié.
Navaza, Gonzalo (2006). Fitotoponimia galega. A Coruña: Fundación Barrié. Biblioteca Filolóxica Galega do Instituto da Lingua Galega.
Portal de Archivos Españoles [PARES]. <https://pares.cultura.gob.es/inicio.html>
Sarmiento, Martín (1950). Viaje a Galicia de Fray Martin Sarmiento (1754- 1755). Ms. de la Abadía de Silos tanscrito por Fr. Mateo del Álamo y Fr. Justo Pérez de Urbel; edición y notas de F.J. Sánchez Cantón y J.M. Pita Andrade. Santiago de Compostela: Instituto P. Sarmiento de Estudios Gallegos.
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