Informe sobre o cámbio do nome do concelho do Riós

O Seminário de Onomástica da Real Academia Galega decidiu modificar a denominação oficial do concelho ourensão de Riós, vigente na atualidade, que passará a ser oficialmente O Riós, com artigo, em consonância com a documentação histórica do topónimo e com o uso ainda vivo na fala da população local.

O Riós é um topónimo de origem controversa. Na documentação medieval atesta-se como “Orriolos” (a. 1029), “villa Urriola” (1031) ou “Orrios” (1204), como podemos comprovar no Corpus Documentale Latinum Gallaeciae. Existem três hipóteses etimológicas para explicar este nome de lugar: ou do latim HORREOLOS, diminutivo de HORREUM ‘tulla, celeiro, despensa’, mas existe o inconveniente de que nesta zona de Ourense não existem este tipo de construções; ou a partir do latim  RIVIOLUS, ‘ribeiros pequenos’, segundo proposta de Moralejo Lasso, mas isto teria de dar o topónimo Os Riós; ou a partir de uma raiz pré-romana *Orr- com o significado de ‘alturas, cumes’ ou ‘vale entre montanhas’, como defende entre outros Vicente Feijoo Ares, comum a outros topónimos de Ourense, Zamora e norte de Portugal: Orra, Urrós, Orreta..

Embora seja certo que a forma aglutinada e etimológica do topónimo Orriós se manteve na escrita até ao século XIX, como podemos ver no Parroquial de Tosar, desde antigo produziu-se uma segmentação do topónimo a partir da interpretação do o- inicial como artigo masculino. Formas como O Riós e a sua castelhanização em El Riós aparecem já em documentos do século XVI: por exemplo, no Libro segundo de testamentos do ano 1543 que se conserva no Arquivo Histórico da Universidade de Santiago de Compostela regista-se um poder em que se menciona a igreja de “Santa María de O rrios”, separado em linhas diferentes.

Parroquial de Tosar

Orrios no Parroquial de Tosar

1543

"Santa Maria de o rrios" no Libro segundo de testamentos do ano 1543 que se conserva no Arquivo Histórico da Universidade de Santiago de Compostela. Fonte: Galiciana

No Catastro de Ensenada de 1752 e nas suas comprovações uma década depois confirma-se a consolidação da forma castelhanizada com a falsa segmentação do artigo, pois assim aparece em múltiplas ocasiões: “Sta Maria de el Rios”, nas respostas gerais ao interrogatório; ou “la villa del Rios”, nas comprovações.

Interrogatorio do Catastro de Ensenada

Interrogatorio da freguesia de “S.ta Maria de el Rios”. Fonte: PARES

Catastro de Ensenada

“En la Villa del Rios” nas comprovações do Catastro de Ensenada

Esta forma segmentada também figura em obras de relevo como o Diccionario geográfico-estadístico de España y Portugal de Sebastián Miñano, onde a paróquia de “Riós [Santa María del]” tem entrada própria:

Miñano

Diccionario geográfico-estadístico de España y Portugal de Sebastián Miñano

Quando se cria o concelho  ao abrigo do Real decreto de 23 de julho de 1835, aparece denominado simplesmente como Riós (BOP núm. 57 de 19 de julho 1836), forma com a qual ficaria fixado o topónimo oficialmente até à atualidade. 

Esta instauração da denominação oficial do concelho não impediu que na documentação oficial e também em textos jornalísticos ou literários continuasse a aparecer a forma com artigo, como se pode ver numa busca em arquivos digitais como Galiciana ou no Tesouro Informatizado da Lingua Galega (TILG), por citar dois casos. Além disso, conservou-se viva na fala do entorno: as formas “Estou no Riós”, “Vivo no Riós” ou “Son do Riós” são espontâneas e habituais. Mesmo existe uma cantiga tradicional recolhida por diferentes cancioneiros que confirma este uso: “Viva Chaira, viva Chaira, / ai, viva Chaira do Riós / viva Chaira, viva Chaira, / ai, que da Chaira sómor nós”. O próprio Concello do Riós tem vindo a empregar nos últimos anos o topónimo O Riós nos editais municipais ou nas notícias da página web municipal.

Por tudo o anterior, o Seminário de Onomástica da Real Academia Galega decidiu restaurar o artigo com este topónimo, O Riós, bem documentado e usado pela vizinhança, à semelhança de outros nomes de concelho onde também não é etimológico como no caso de O Grove (< OCOBRE), O Incio (< ONITIO) ou A Baña (< ABANIA).  

FONTES E BIBLIOGRAFIA

Boullón Agrelo, A. I. (2011). O artigo na toponimia galega: aspectos da estandarización. Revista galega de filoloxía, 12. Páx. 11-35

Corpus Documentale Latinum Gallaeciae. Santiago de Compostela: Centro Ramón Piñeiro para a Investigación en Humanidades. <https://corpus.cirp.gal/codolga/>

Expediente de comprobación de bienes, rentas y cargas del lugar y coto de Trepaa en la feligresía de Santa María de Ríos (Ríos, Orense), efe ... Archivo General de Simancas  <https://pares.mcu.es:443/ParesBusquedas20/catalogo/description/6091680>

Feijoo Ares, V. (2020). O Seminario de Onomástica responde: O Riós <https://youtu.be/tuJNU1TIxCk?si=Q48mZetHrv_qErP->

Libro segundo de 1543 (1542 / 1544). Archivo Histórico da Universidade de Santiago de Compostela < https://arquivo.galiciana.gal/arpadweb/gl/consulta/registro.do?id=2333898>

MIñano y Pascual, S. (1827). Diccionario geográfico-estadístico de España y Portugal. VII. Madrid: Imprenta de Pierart-Peralta.

Real decreto de 23 de julho de 1835 para o arreglo provisório dos Ayuntamientos da Península e Ilhas adjacentes. Gaceta de Madrid. Suplemento de 24 de julho de 1835 <https://www.boe.es/diario_gazeta/comun/pdf.php?p=1835/07/24/pdfs/GMD-C-1835-206.pdf>

 

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